POR ANTÔNIO CARLOS BORDIN E THASSIA OHPHATA

Alguns aspectos devem ser levados em conta durante o processo da compra. Veja também o que fazer caso esteja com dificuldades para pagar as parcelas. Ter a casa própria faz parte dos sonhos de muitos brasileiros, inclusive a maior parte deles veio ao Japão com o plano de trabalhar alguns anos, juntar dinheiro e retornar ao Brasil para conquistar esse objetivo. Passadas mais de três décadas, grande parte da comunidade resolveu fixar residência permanente no país e mudaram os planos iniciais.
Para quem decidiu que quer ficar na terra dos antepassados, sair do aluguel e comprar uma casa pode se tornar um plano muito válido. “Recomendo comprar quando as crianças são pequenas, pois a família vai usufruir bastante da casa. Mesmo que seja apenas o casal, o melhor é comprar um imóvel e saber que um dia estará quitado e não ter de trabalhar para pagar o aluguel”, explica Ricardo Koyama, proprietário de uma construtora em Gunma.

Para Hiromi* (nome fictício a pedido da entrevistada), que vive há 23 anos no país, pagar as parcelas do financiamento de uma casa que ela se orgulha de dizer que é sua tem um significado muito especial. “Meu ex-marido comprou uma casa, só que só no nome dele. Toda vez que brigávamos, ele dizia que teria que sair de casa, indicando que não era minha também”, lembra ela, que vivia um relacionamento abusivo. “Ele dizia que eu nunca conseguiria pagar uma casa, e que se conseguisse, iria morar em um lugar muito feio.” Hiromi conseguiu se separar, mas os problemas não cessaram, tornando mais distante o sonho dela de conseguir comprar uma casa em seu nome. “As dívidas que ele fazia no cartão de crédito vieram para mim. Com essas dívidas eu jamais conseguiria um financiamento para comprar um imóvel novo”, contou.

O jeito foi trabalhar, juntar dinheiro e quitar a dívida do cartão para conseguir realizar seu sonho. “Até que fui em outra imobiliária, que disse que meu nome estava limpo e se eu apresentasse holerites de seis meses de trabalho e um bom salário, conseguiria o financiamento”, conta.
Hiromi acabou conseguindo um emprego que pagava um salário melhor, ¥ 1.600 a hora, nos períodos bons, e ¥ 1.300 quando a produção caísse. “Juntei os holerites de seis meses, de quando recebia ¥ 1.600 a hora, e apresentei os documentos necessários e consegui financiar uma casa.”
Ao contrário do que o ex-marido desejava para ela, a casa, como ela mesma diz, “é linda e fica em um lugar muito bonito”. “Para me certificar de que seja quitada, mesmo que aconteça algo comigo, estou pagando vários seguros.”

Hiromi é agradecida à mãe por tê-la ajudado a cuidar dos filhos quando saiu do relacionamento abusivo e tinha que trabalhar à noite. “Quando me separei, decidi ir para frente, e por nada nesse mundo voltaria a um relacionamento para sofrer como sofri”, diz ela, que devido a toda a situação, teve depressão e até sofreu uma paralisia no rosto. “Imagine uma mulher passando por isso, foi muito difícil. Mas depois que tudo passou, a vida começou a melhorar. Além de um bom serviço, estou em um novo relacionamento. Não tenho medo de trabalhar e estou na luta para quitar o financiamento, cada prestação é como um aluguel, mas estou pagando uma casa que é minha.”

A seguir, alguns cuidados a serem tomados antes de adquirir um imóvel no Japão. Caso já tenha comprado uma casa, mas está com dificuldades para pagar o financiamento, especialistas dão dicas que irão ajudá-lo a lidar nessas situações.

“PARA ME CERTIFICAR DE QUE SEJA QUITADA, MESMO QUE ACONTEÇA ALGO COMIGO, ESTOU PAGANDO VÁRIOS SEGUROS”
Hiromi*

LOCALIZAÇÃO
Realizar a compra de um imóvel envolve muitos detalhes. Não se trata apenas de mais uma compra comum no dia a dia, mas de algo que, na teoria, é para a vida toda.
Um dos critérios importantes que deve ser levado em consideração é a localização do imóvel. Além disso, leve em conta também as opções de trabalho que a região oferece. “A escolha do local da compra ou construção da casa deve ser feita considerando se existem escolas ou estações de trem que facilitam o acesso ao imóvel e proximidade de supermercados, no entanto, esses locais são, geralmente, mais caros”, explica Ricardo Koyama, proprietário de uma construtora em Gunma. “A maioria dos estrangeiros opta por locais já conhecidos, por já morarem na região um longo período e conhecerem as várias opções de trabalho na área.”

“A ESCOLHA DO LOCAL DA COMPRA OU CONSTRUÇÃO DA CASA DEVE SER FEITA CONSIDERANDO SE EXISTEM ESCOLAS OU ESTAÇÕES DE TREM QUE FACILITAM O ACESSO AO IMÓVEL E PROXIMIDADE DE SUPERMERCADOS, NO ENTANTO, ESSES LOCAIS SÃO, GERALMENTE, MAIS CAROS”
Ricardo Koyama

VALOR DO FINANCIAMENTO
No empréstimo residencial, Ricardo explica que o banco disponibiliza o valor do imóvel (casa pronta ou usada) mais taxas indiretas referentes à compra – não inclui o Koteishisanzei (imposto municipal sobre os bens imobiliários, o que seria o IPTU no Brasil). Já para as casas novas, o valor do empréstimo é referente ao terreno e construção. “Se a pessoa colocar carros, viagens, entre outros itens, nesse total e o banco descobrir, ela será obrigada a ressarcir o valor. Dependendo da situação, o banco exigirá o pagamento total da dívida do credor.”

Caso queira instalar painel solar, construir uma garagem ou fazer alguma reforma na casa será preciso solicitar um empréstimo adicional. Algumas imobiliárias e construtoras oferecem esse serviço na compra do imóvel.

É importante sempre analisar o valor do imóvel e as condições do financiamento. É preciso estar ciente das parcelas e levar em conta o envelhecimento e o salário atual, que muitas vezes, não vai ser o mesmo depois de alguns anos. “No nosso caso apresentamos um planejamento financeiro e os futuros proprietários ficam cientes do valor das parcelas”, conta Koyama. “Muitos compram um imóvel pensando em deixar como herança aos filhos, e não se deve considerar isso. O filho vai crescer e seus objetivos e desejos nem sempre serão de permanecer na mesma cidade.”

SEM VISTO PERMANENTE
Hoje, um brasileiro sem visto permanente consegue o financiamento de imóvel. “Atualmente, há bancos ou instituições financeiras que apresentam propostas de empréstimo residencial para estrangeiros sem o visto permanente, mas as condições são rigorosas, como por exemplo ser casado com um cidadão de nacionalidade japonesa (ou que possua visto permanente) e ser seishain na empresa, além de ter conhecimento do idioma japonês”, explica Ricardo Koyama.

Koji Muto, presidente de uma imobiliária em Aichi, diz que, para quem está como haken shain ou keiyaku shain as chances de conseguir o empréstimo são menores ainda. “Além disso, muitas vezes, o comprador precisa ter um bom dinheiro para a entrada.” Os requisitos e condições variam conforme a instituição financeira, que pode ser com os juros mais altos ou empréstimo de parte do valor do imóvel.

Os especialistas ouvidos são categóricos em afirmar que a melhor opção é ter paciência e conseguir primeiro o visto permanente, e assim ter as melhores opções de mercado no pedido de empréstimo residencial.

“HÁ BANCOS OU INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS QUE APRESENTAM PROPOSTAS DE EMPRÉSTIMO RESIDENCIAL PARA ESTRANGEIROS SEM O VISTO PERMANENTE, MAS AS CONDIÇÕES SÃO RIGOROSAS”
Ricardo Koyama

RENEGOCIAÇÃO DAS PARCELAS
Caso o dono do imóvel esteja doente, perdeu o serviço ou sofreu algum acidente e está com dificuldades, é possível fazer a renegociação do pa- gamento das parcelas. Mas, antes de qualquer atraso, é preciso entrar em contato com o banco e explicar a situação. Cada caso será analisado individualmente. Segundo Koji Muto, o mais indicado aos brasileiros, nesses casos, seria a moratória (shiharai yuuyo/支払猶予) e pagar somente a parte do juro mensalmente por um determinado período. Geralmente, os bancos podem dar a carência de até um ano no pagamento das parcelas do imóvel. A consultora imobiliária Kaori Yamashita dá o seguinte exemplo: uma casa adquirida em 2013, no valor total de ¥ 25 milhões e financiamento mensal de ¥ 80 mil, com taxa de juros de 1,8%. “Neste caso, na presente data, a pessoa vai estar pagando ¥ 42.500 de abatimento da dívida e ¥ 37.500 de juros. O banco pode aceitar o pedido do cliente e, por até um ano, ele vai cobrar apenas o valor de juros, de ¥ 37.500 ao mês.” O procedimento de pagamento desse restante varia de acordo com o banco. No geral, as parcelas são “adiadas”, aumentando o período do financiamento.

“PARA ESSE NOVO BANCO COMPRAR UMA DÍVIDA ALTA E GANHAR JUROS MENORES, O PERFIL DO CLIENTE TEM QUE SER FAVORÁVEL, OU SEJA, COM HISTÓRICO DE BOM PAGADOR”
Kaori Yamashita

Caso o proprietário queira diminuir os juros pagos, e con- sequentemente reduzir o valor das parcelas, há a possibilidade de fazer o refinanciamento do imóvel. Segundo Kaori, nesse caso, é feito um novo financiamento em outro ban- co com as taxas de juros mais baixas. “A pessoa irá passar pelo mesmo processo finan- ceiro que de quando comprou a casa. Vai ser necessário apre sentar todos os documentos dos financiamentos que tem, comprovantes de renda, contrato de trabalho, seguro saúde etc”, explica. “Não são todos os bancos que aceitam o refinanciamento de veículos (carro, moto, caminhão, barco, jet-ski). Mas, os que aceitam, o veículo fica quitado e é possível vender depois sem problema, já que ele não vai estar mais alienado. Essa é uma vantagem muito boa.” É importante lembrar que, para fazer essa renegociação, é preciso estar com o pagamento do financiamento em dia. “Se tiver parcelas em atraso, o novo banco entende que ele é um mau pagador ou não tem uma vida financeira estável. Para esse novo banco comprar uma dívida alta e ganhar juros menores, o perfil do cliente tem que ser favorável, ou seja, com histórico de bom pagador.”

Kaori lembra que o refinanciamento pode ser feito por qualquer pessoa. “Mas há casos e casos. Por exemplo, 10 anos atrás, os ju- ros para a compra dos imóveis eram mais altos e hoje estão bem mais baixos. Então, es- tamos em um ciclo financeiro muito propício para negociar as dívidas. Talvez, daqui cinco anos, para quem comprou um imóvel hoje, essa prática não seja tão vantajosa.”

SEPARAÇÃO DO CASAL
Alguns casais optam pelo financiamento em conjunto (pair loan). Mas o que acon­tece quando há o divórcio do casal? “Como os dois fizeram o financiamento juntos, um ficou como fiador do outro. Sendo assim, mesmo que um deixar de pagar, o outro tem que pagar o valor completo da parcela. O não pagamento por mais de seis meses pode ocasionar a recuperação do imóvel por parte da financeira”, explica Kaori Yamashita. Outra possibilidade, segundo a consultora, seria refinanciar o imóvel em nome de apenas uma pessoa.

“COMO OS DOIS FIZERAM O FINANCIAMENTO JUNTOS (PAIR LOAN), UM FICOU COMO FIADOR DO OUTRO. SENDO ASSIM, MESMO QUE UM DEIXAR DE PAGAR, O OUTRO TEM QUE PAGAR O VALOR COMPLETO DA PARCELA”
Kaori Yamashita

CASA DEVOLVIDA AO BANCO
O drama de Akemi* (nome fictício a pedido da entre­vistada), começou em 2019, quando seu filho mais velho decidiu comprar uma casa para ela. A família não teve dificuldades de preencher os documentos e o financiamen­to foi aprovado prontamente. “Fizemos uma dívida de ¥ 18 milhões de ienes, e naquele ano fizemos outro financia­mento de ¥ 5 milhões para construir a garagem.”

O imóvel abrigava seis membros da família e foi combinado que o pagamento das parcelas da casa ficaria sob a responsabilidade do filho, enquanto as despesas da moradia ficariam com Akemi. “Tudo corria bem, até que um dia fiquei sabendo que as parcelas do financiamento es­tavam atrasadas. Meu espanto foi maior quando vi que eram dez parcelas que ele não havia pagado. Quando recebi a notí­cia, não havia mais o que fazer.” Akemi se viu em um beco sem saída: ou quitava os ¥ 16 milhões das duas dívidas que ainda faltavam para pagar ou iria para a rua. Sem ter muito o que fazer, em poucos meses, precisou entregar a casa, em dezembro do ano passado. “Precisei conseguir alugar uma outra moradia que coubesse a família e os bichos que cuido, além do meu material de tra­balho e seis carros”, lembra.

O resultado disso é que Akemi hoje mora em uma ou­tra casa alugada, com seu filho mais novo, o namorado e um primo. O outro filho e mulher dele foram residir no aparta­mento alugado pela empresa. “Ainda tenho a vontade de comprar uma casa, mas, dessa vez, sem financiamento. Meu filho está em situação bem difícil, e a única mágoa que fi­cou foi o fato dele não ter me avisado nem ter pedido aju­da”, lamenta. “Apesar de tudo o que ocorreu, ele não deixou de ser meu filho. Mas quando o filho não escuta o que a mãe fala, a vida ensina de outro jeito mais duro. Agora sofre as consequências da decisão que tomou. Ele vai ter de enfrentar e até superar tudo isso.”

“MEU ESPANTO FOI MAIOR QUANDO VI QUE ERAM DEZ PARCELAS QUE ELE NÃO HAVIA PAGADO. QUANDO RECEBI A NOTÍCIA, NÃO HAVIA MAIS O QUE FAZER”
Akemi*

FALÊNCIA PARCIAL
Caso não tivesse contratado os serviços de um advogado, certamente Júnior* (nome fictício a pedido do entrevis­tado), teria perdido a casa que foi financiada em 35 anos. No Japão desde 1999, ele conta que depois de quatro anos, decidiu ficar definitivamente no país, em vez de voltar ao Brasil, como muitos planeja­vam na época.

Como nunca havia feito dívida, há sete anos, Júnior achou que era hora de com­prar uma casa para ele, a esposa e dois filhos pequenos. “Como estava morando em uma casa nova, decidi finan­ciar também um carro novo. Mas muita gente batia na por­ta de casa querendo oferecer adicionais, como garagem, deck, painel solar, cerca etc. Financiei alguns desses opcionais e as contas foram aumentando, mas dava para pagar pois tinha um salário bom.” Júnior conta que se sentiu engando, porém, com um vendedor que lhe ofereceu o sistema de painel solar, dizendo que com o uso o equipamento iria se pagar. “Mas não foi bem assim, e essa ideia de se pagar funcionou nos meses de verão, com muito sol. Depois diminuía e eu tinha que completar do meu bolso.

“COMO ESTAVA MORANDO EM UMA CASA NOVA, DECIDI FINANCIAR TAMBÉM UM CARRO NOVO (…). FINANCIEI ALGUNS OPCIONAIS E AS CONTAS FORAM AUMENTANDO, MAS DAVA PARA PAGAR POIS TINHA UM SALÁRIO BOM”
Júnior*

Começou a ficar apertado, e, então, comecei a ver que não daria conta de tudo o que estava pagando.” Para piorar ainda mais a situação, veio a pandemia de coronavírus, e, como muitos trabalhadores, Júnior perdeu o emprego. Conseguiu um novo serviço, mas com um salário bem mais baixo. Os atrasos nas parcelas começaram, além de pessoas que foram cobrar dívida em sua casa. Sem saber como lidar com a situação, ele procurou as orientações de um advogado. Uma solução dele seria refinanciar a dívida, mas dois bancos se recusaram. Outra opção dada pelo advogado, era dar entrada no pedido de falência parcial. “Fazendo assim, eu não iria perder a casa. O advogado me orientou a continuar pagando a casa, mas não o carro e outros adicionais que foram financiados.”

O juiz analisou toda a situação dele com base nos recibos dos gastos que tinha guardado e depois de cinco meses, foi decretada a falência parcial. Com essa decisão, Júnior continuou pagando as parcelas da casa, mas não dos adicionais que acrescentou no imóvel e do carro, conforme o advogado orientou. “Pela minha condição, ficou determinado que eu pagaria 20% da dívida, que era de ¥ 13 milhões”, revela.
O período de falência parcial de Júnior deve durar entre cinco e sete anos. “Nesse período não posso ter cartão de crédito e nem trabalhar em alguns setores, mas em fábrica sim. Na falência, a pessoa não pode comprar cigarro, bebida alcoólica nem jogar na takarakuji, por exemplo”, explica.

“NESSE PERÍODO (DE FALÊNCIA PARCIAL), NÃO POSSO TER CARTÃO DE CRÉDITO E NEM TRABALHAR EM ALGUNS SETORES”
Júnior*

Apesar disso, ele vê tudo isso como algo positivo, pois no início até perdeu o sono ao pensar que sua casa poderia ser tomada pelo banco. “Posso ter errado. Meu salário na época era muito bom e dava conta das dívidas. É claro que eu nunca pensei em declarar falência para deixar de pagar minha dívida, mas fiz isso para resolver o problema e não perder a casa.” Hoje, Júnior trabalha em uma nova fábrica, onde o dono quer tornar os traba- lhadores como contratados diretos, o que pode dar uma maior estabilidade nos tempos difíceis. Com base na experiência que passou, ele aconselha a quem estiver qui- tando um financiamento a ja- mais deixar atrasar as parcelas. “Se isso ocorrer, vá rápido falar com o banco para tentar ne- gociar e procure por um bom advogado para orientar sobre como proceder. Eu encontrei um ótimo advogado, que me explicou muito bem.”

FALÊNCIA
Os especialistas ouvidos são categóricos: a falência é o último passo a ser tomado. “Antes do atraso das parcelas há sempre possibilidade de negociação junto à financeira. Caso não seja possível, pode se tentar a venda do imóvel ou mudança no contrato para poder alugar o imóvel”, afirma Kaori Yamashita. Para evitar falência, conforme explica Koji Muto, é possível fazer negociação do valor de pagamento (Nin-i seiri/任意整 理), ou falência parcial (Kojin saisei/個人再生), para diminuir outras dívidas para salvar a casa. Mas quando é decretada a falência, não há muito o que fazer. No Japão, esse dado é registrado no Kojin Shinyo Center (KSC), e a pessoa perde o crédito por, pelo menos, sete anos. “Algumas pessoas, de fato, conseguiram comprar suas casas financiadas depois de menos de sete anos da falência. Creio que um dos motivos de sucesso, é por causa da diversidade de combinação do nome, pois a maioria dos brasileiros tem mais de três nomes”, revela Koji Muto.

RETORNO AO BRASIL
Imprevistos fazem parte da vida e nunca sabemos o que pode acontecer no dia se­guinte. O que fazer se um dia precisar voltar ao Brasil? “Se o proprietário deseja deixar a possibilidade de retornar ao Japão em aberto, ele pode alugar o imóvel”, explica Ricardo Koyama. Algumas em­presas fazem o gerenciamento do imóvel. Caso o retorno ao Brasil seja em definitivo, a segun­da opção seria vender o imóvel e quitar a dívida do financiamento. No entanto, dependendo da província, a venda do imóvel nem sem­pre alcança o valor total da dívida do financiamento e o proprietário precisará arcar com a diferença da dívida e o valor da renda. “Se não tiver o valor da diferença, o pro­prietário pode contratar um advogado e pedir a falência pessoal. Mas, com isso, ele fica incapacitado de fazer no­vos empréstimos, ter cartão de crédito ou fazer compras a prazo por um período de sete anos”, afirma Koyama.

Koji Muto recomenda que quando o dono do imóvel de­cide retornar ao Brasil, que se desfaça da propriedade antes de partir. “Se retornar ao Brasil sem vender, a financiadora vai querer localizar o dono para poder pôr no leilão.”

“SE O PROPRIETÁRIO DESEJA DEIXAR A POSSIBILIDADE DE RETORNAR AO JAPÃO EM ABERTO, ELE PODE ALUGAR O IMÓVEL”
Ricardo Koyama

SEGUROS
Ao adquirir um imóvel, é importante o proprietário se precaver, buscando apoio em seguros. O primeiro deles é em relação ao seguro de vida, cuja contratação é obrigatória ao fazer o financiamento de um imóvel no Japão. Ricardo Koyama explica que há seguros opcionais de vida que cobrem 100% das doenças ou machucados.

“ALÉM DO INCÊNDIO, O JUTAKU SOGO HOKEN COBRE TAMBÉM OS ESTRAGOS CAUSADOS PELO VENTO, ACIDENTES, E COMO OPCIONAL PODE INCLUIR AINDA ESTRAGOS CAUSADOS POR ÁGUAS”
Koji Muto

Esses seguros pagam as parcelas da casa enquanto a pessoa estiver doente ou machucada, além disso, há um prêmio tipo ‘mimaikin’, de cerca de ¥ 100 mil, dependendo do seguro.”
Há ainda algumas opções mais completas, que quitam o empréstimo em casos das principais doenças do Japão (câncer, AVC, infartos, doenças renais crônicas, hipertensão, diabetes, cirrose, entre outras). “Esse tipo de seguro varia con­forme a instituição financeira (San Dai Shippei Hoken/三大疾病保険, Nana Dai Shippei hoken/七大疾病保険, Hachi Dai Shippei Hoken/八大疾病保険 ou outros)”, explica Kaori Yamashita.
No caso, todos esses opcionais só podem ser incluídos quando for fazer o financiamento e não podem ser incluídos depois.

Koji Muto explica que, em japonês, é usada a palavra Jutaku Sogo Hoken, que quer dizer ‘seguro geral sobre a casa’. “Além do incêndio, esse seguro cobre também os estragos causados pelo vento, aciden­tes, e como opcional pode incluir ainda estragos causados por águas (e inundações)”, explica. “Esse mesmo seguro pode incluir roubos e danos ocorridos no dia a dia, tais como quebra de algum objeto emprestado de um amigo ou de um produto no mercado.”
Há ainda outros seguros do imóvel, que cobrem proble­mas estruturais. “Temos tam­bém o seguro do solo, caso a casa venha a ter problemas devido à falta de resistência no solo”, diz Koyama.

INVESTIMENTO
Já o investimento em imóveis é um sistema completamente di- ferente, explica Kaori Yamashi- ta. Nesse tipo de negócio, é preciso fazer um financiamento específico de investimento e ter conhecimento comprovado na área, como por exemplo, um curso ou ter adquirido um imóvel à vista. “Por ser um investimento sempre vai haver necessidade de pagamento de uma parte pelo interessado. O banco não arca com 100% do valor como em financiamento de imóveis para moradias.” Já em relação ao leilão de imóveis, Kaori diz que é preciso ter cautela. “É simples, mas ao mesmo tempo muito complicado e arriscado.”

A consultora explica que qualquer um pode dar lances e comprar um imóvel no leilão, mas é preciso ser por meio de uma imobiliária com registro nos sistemas de leilão – como nos leilões de carros. “É algo que se torna extremamente perigoso se falta informação, pois o risco de perder dinheiro é alto”, alerta. “O imóvel é com- prado às cegas, muitos não têm fotos. É preciso ficar atento aos detalhes e às diversas observa- ções que possam ter na ficha do imóvel, como problema estrutural, regularização com as normas do munícipio, óbito ou cena de assassinato, concessão parcial, entre outros.”

“O LEILÃO DE IMÓVEL SE TORNA EXTREMAMENTE PERIGOSO SE FALTA INFORMAÇÃO, POIS O RISCO DE PERDER DINHEIRO É ALTO”
Kaori Yamashita

CASAS ABANDONADAS
Alguns donos de terrenos e casas no Japão preferem dar de graça suas propriedades ao invés de vendê-las, devido a circunstâncias pessoais ou mudanças no ambiente eco- nômico e social. A maioria dessas proprie- dades está localizada em áreas rurais e subúrbios, e muitas vezes são administradas por departamentos especializados de governos locais. Em outubro, a empresa de crédito ao consumidor Orient Corp., conhecida como Orico, associada a 10 bancos regio- nais em todo o Japão, lançou um novo serviço de emprés- timos focado na compra de casas vazias. Normalmente, os bancos são relutantes em oferecer empréstimos para a compra de casas vazias devido ao seu baixo valor como garantia. No entanto, a parceria com a Orient permitirá aos bancos contar com a experiência da empresa de crédito para mini- mizar o risco de inadimplência. Isso tornará mais fácil para os bancos regionais aprovarem tais empréstimos.

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